Ano da Vida Consagrada

Na segunda carta circular para o Ano da Vida Consagrada

 

A Esperança numa pequena nuvem

pescrutaiVigiar, progredir, abrir-se às novidades: o arcebispo José Rodríguez Carballo, secretário da Congregação para os religiosos, atribuiu estes três significados ao verbo «perscrutar», que inspirou a segunda carta circular redigida pelo dicastério em preparação para o Ano da vida consagrada. Apresentando os seus conteúdos na Pontifícia universidade urbaniana, no dia 15 de Outubro, por ocasião da inauguração do Studium do dicastério, o prelado recordou que o documento Perscrutai: Aos consagrados e consagradas a caminho como sinais de Deus dá continuidade ao percurso indicado na primeira carta intitulada Alegrai-vos.

Explicou que naquela ocasião foram dois ícones bíblicos tirados do profeta Isaías e as palavras do Papa Francisco que guiaram a reflexão, enquanto nesta segunda carta o ponto de partida é a imagem bíblica da nuvem, «como sinal da presença, da bondade e da fidelidade de Deus, que guia o povo ao longo do deserto». Ao mesmo tempo, remete para a «nuvem pequena como a mão do homem» que o profeta Elias entrevê no horizonte quando se eleva do mar, abrindo-se então à esperança e ao futuro. E para os religiosos isto quer dizer — comentou — «examinar em profundidade, com cuidado e atenção para ver, encontrar e compreender o que não é evidente nem visível», ou seja, «buscar com cuidado, com atenção» e, ao mesmo tempo, «intensamente e com paixão». Conseqüentemente, «a perscrutação não é para pessoas distraídas nem cansadas mas inclui uma elaboração intensa, esforço e paixão»: paixão por Deus e pelo homem. Eis, portanto as três conotações do termo «perscrutar». A primeira está ligada à vigilância, e «como sentinelas da manhã», disse, é preciso «manter os olhos e os ouvidos do coração bem abertos para compreender os passos do Senhor da história e ouvir o sussurro da sua voz». A segunda remete para o «progredir de virtude em virtude», como dizia santa Clara de Assis, superando os «sinais de morte» que, contudo existem na vida consagrada e potencializando os «sinais de vida» que também não faltam, quer dizer «separar o bem do mal, para optar pelo primeiro e, sobretudo, encontrar o melhor para este momento que o Senhor nos chamou a viver». Por fim, a terceira evoca a abertura à novidade, «à imprevisibilidade de Deus». Porque, acrescentou o arcebispo secretário, «diante da complexidade do momento atual e da crise que a vida consagrada está a viver, não há outra alternativa para intuir quais caminhos somos chamados a percorrer e quais decisões devemos tomar, sabendo que tais decisões têm sempre uma data de vencimento e, portanto, que o perscrutar nunca acaba». De fato, o consagrado é chamado a «confrontar-se com provocações em processo contínuo», com «instâncias e paixões gritadas pela humanidade» e isto «leva-o a permanecer vigilante a fim de salvaguardar em cada momento a busca do rosto de Deus e a sequela Christi, deixando-se guiar pelo Espírito».

De resto, só com uma atitude deste tipo «a vida consagrada poderá viver este tempo delicado e difícil e assim fortalecer-se».

D. Rodríguez Carballo depois evidenciou que «nunca, mas talvez hoje menos ainda, é permitido que os consagrados se distraiam. Se isto acontecer, os inimigos em forma de acedia que “ofusca a visão”, a rotina, que faz abortar qualquer tentativa de fidelidade criativa, e o cansaço que nos leva a preferir a morte em vez de continuar a caminhar», acabaria por «perder qualquer significado evangélico e por conseguinte a própria razão da escolha vocacional». A este propósito, o prelado recordou que «muitos dizem que a vida consagrada está a atravessar uma “noite escura”. Aceito este diagnóstico — respondeu indiretamente — sempre que esta expressão tenha o sentido que lhe dão os místicos: tempo de provação, tempo de podadura». E «nesta situação os consagrados são chamados a reconhecer a nuvem, embora pequena, que anuncia vida na qual talvez muitos só vêem sinais de morte».

Por fim o prelado evidenciou que «se a dimensão profética não pode faltar na vida consagrada e se a sua missão, segundo o Papa Francisco, é a de “despertar o mundo”, os consagrados devem viver em êxodo obediente», porque «como profeta o consagrado deve manter o seu coração “dirigido constantemente para o Senhor” (são Francisco) para falar em seu nome, e ver o que vem do Senhor e o que lhe é contrário». Ao mesmo tempo, concluiu, é preciso «manter o coração em profunda sintonia com os homens e mulheres do seu tempo para os poder consolar e, quando necessário, despertar».

Além do cardeal prefeito João Braz de Aviz, interveio também a irmã Nicla Spezzati, subsecretária da Congregação, que apresentou uma leitura da circular sob o ponto de vista da consagração feminina, que constitui pelo menos 80% do total.

No seu pronunciamento a religiosa convidou, nas pegadas da carta Perscrutai «a avaliar a herança preciosa» do concílio Vaticano II e «os processos que vivem e estão em ato há cinqüenta anos através do decreto Perfectae caritatis». Indicou três deles: a vida consagrada como lugar de testemunho e Evangelho, a abertura a um novo modelo de Igreja e «abandonar a aparente obviedade de um caminho realizado, para despertar uma mens conciliar com a paixão do profeta que perscruta, intui e intercede».

Eis a exortação conclusiva a ver «nos sinais das pequenas possibilidades, nos sinais do grito humano, nos caminhos das fragilidades contemporâneas os rebentos que devem ser levados à maturação no estilo de Maria, bem-aventurada porque acreditou».

 

 

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